Não somos parvos!? Ou somos?
Há coisas que só acontecem no Benfica. E quando acontecem, acontecem sempre “pelo bem do clube”. É quase uma força da natureza. Como o nevoeiro na Segunda Circular ou as assembleias gerais acabarem às três da manhã.
Há coisas que só acontecem no Benfica. E quando acontecem, acontecem sempre “pelo bem do clube”. É quase uma força da natureza. Como o nevoeiro na Segunda Circular ou as assembleias gerais acabarem às três da manhã.
No ano passado, em plena época eleitoral, apareceu José Mourinho. Não apareceu “oficialmente”, claro. Aquilo foi uma coisa subtil. Discreta. Quase invisível. Um pequeno detalhe mediático sem importância nenhuma: o treinador português mais famoso do planeta associado ao Benfica precisamente quando Rui Costa precisava de um empurrãozinho emocional para convencer os sócios de que “o projeto estava vivo”.
Coincidências. O futebol português vive delas. E nós, benfiquistas sérios e racionais, claro que não nos deixámos influenciar. Nada disso. Não somos parvos!? Ou somos?
A verdade é que a simples possibilidade de Mourinho entrar na órbita encarnada caiu no universo benfiquista como uma chuva de sebastianismo futebolístico. Finalmente vinha “o special one”. Finalmente alguém que ia bater na mesa. Finalmente um líder mundial, um estratega, um animal competitivo. Finalmente alguém que transformaria conferências de imprensa em sessões de bullying psicológico aos rivais.
E, convenhamos, aquilo ajudou bastante Rui Costa. Porque Rui Costa é isto: um génio absoluto com a bola nos pés e uma entidade metafísica na gestão. Um homem tão elegante a jogar que durante anos convencemos o país de que elegância também era um plano estratégico. Nas eleições, resultou. Entre nostalgia, vídeos emocionais, referências ao “Benfica europeu” e o perfume Mourinho no ar, Rui Costa ganhou. E ganhou bem. Porque o benfiquista acredita sempre que “agora é que vai ser”.
Fast forward para hoje. Mourinho sai de cena sem apelo nem agravo, como um figurante caro numa novela da TVI. Não veio. Não ficou. Não explicou. Evaporou-se. O mito serviu o seu propósito e regressou à estratosfera mediática onde habita entre podcasts ingleses e selfies no aeroporto.
E Rui Costa? Rui Costa cá fica. Sempre sereno. Sempre elegante. Sempre com aquele ar de quem acabou de perder as chaves do carro, mas mantém a classe. O grande jogador. O mui modesto gestor.
Entretanto, nós, benfiquistas, continuamos naquele estado espiritual muito próprio:
• a ver taças… pela televisão;
• campeonatos… no museu;
• e a Champions… como quem olha para apartamentos de luxo no Idealista.
Mas calma, porque o projeto continua sólido. Aliás, o Benfica tornou-se especialista em “projetos sólidos”. Tão sólidos que às vezes nem se mexem. O mais extraordinário é a nossa capacidade coletiva para repetir ciclos emocionais com a alegria de quem nunca aprendeu nada. Todos os anos:
“Agora é que vai.” “Temos plantel.” “Este mercado foi cirúrgico.” “O presidente aprendeu.” “O treinador finalmente percebeu.”
E depois chega novembro e já andamos a estudar o calendário da Taça da Liga como quem prepara uma travessia no deserto.
Mas também é injusto criticar demasiado. Porque gerir o Benfica não deve ser fácil. É preciso equilibrar contas, vender jogadores, dar entrevistas vagas e manter viva a esperança mística de 1962. E nisso, sejamos honestos, Rui Costa continua imbatível: ninguém mantém viva a esperança como ele. Nem Fátima compete.
Por isso talvez a pergunta certa não seja “não somos parvos?”. Talvez seja outra:
quantas vezes um benfiquista consegue acreditar na mesma promessa antes de começar a pedir o VAR à própria memória?
A resposta, infelizmente, já todos sabemos.
Até às próximas eleições, pelo menos