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Desporto

“Milhões sem Mística: Como o Benfica Tropeçou na Própria Grandeza”

Talvez o maior drama seja esse: o Benfica continua enorme em tamanho, mas cada vez mais pequeno em identidade.
O Benfica transformou-se numa espécie de multinacional emocional: vende jogadores como quem exporta petróleo, anuncia milhões em catadupa, apresenta relatórios cheios de números astronómicos, mas depois entra em campo e parece uma equipa montada numa reunião de condomínio. Desde 2020, encaixaram-se quase 800 milhões de euros em vendas. O Chelsea apenas fez melhor. A diferença é que o Chelsea pode dar-se ao luxo de errar porque pertence a um universo paralelo onde perder dinheiro é hobby de bilionário. O Benfica não. Mas age como se estivesse em Londres, quando na verdade vive numa eterna Assembleia Geral em combustão lenta. Rui Costa continua a beneficiar daquela aura quase sagrada do antigo maestro. E ninguém lhe tira isso: foi um jogador extraordinário, um símbolo elegante, um dos últimos românticos do futebol português. O problema é que gerir um clube não é fazer um passe de trivela nem meter uma bola no ângulo em San Siro. Estratégia, gestão, finanças, liderança institucional… tudo isso parece tão distante do presidente como defender bolas paradas parecia distante das equipas do Benfica nos últimos anos. A sensação que passa é a de um clube entregue a uma mistura de improviso, nostalgia e dependência externa. Jorge Mendes paira sobre a Luz como uma entidade reguladora invisível: entra treinador, sai jogador, chega promessa argentina, aparece extremo nórdico de 18 milhões, desaparece lateral brasileiro de 12. No fim, ninguém percebe bem quem decidiu o quê, mas a comissão deve ter sido excelente. E depois há Mourinho. O trunfo eleitoral perfeito. Não como projeto desportivo, não como visão estratégica para o clube, mas como cartaz de campanha ambulante. A solução encontrada para unir adeptos cansados foi invocar o último grande general português disponível no mercado. Como quem diz: “não temos ideia para o Benfica, mas temos um nome sonante para vos distrair.” Uma espécie de smoke machine institucional. Enquanto isso, o Benfica tornou-se especialista em comprar caro e comprar mal. Contratações milionárias acumulam-se como episódios de uma novela repetida: avançados que não marcam, médios sem intensidade, defesas que parecem descobrir o conceito de linha defensiva em tempo real. O clube vende muito bem, é verdade. Talvez até demasiado bem. Forma jogadores para alimentar a Europa inteira… excepto a própria equipa principal. A famosa “mística” desapareceu algures entre powerpoints financeiros, campanhas de marketing e apresentações de jogadores ao som de música épica. Hoje o Benfica parece uma marca global à procura de identidade local. Os adeptos já não se revêm na liderança, não sentem proximidade, não sentem rumo. Sentem apenas fadiga. E os números desportivos são demolidores para um clube que se proclama gigante europeu: em dez anos, três campeonatos e uma Taça de Portugal. Pouco. Muito pouco para quem vive constantemente a anunciar hegemonias iminentes. Pelo meio, o Porto continua a ganhar quase por teimosia genética, mesmo em crise financeira permanente, e o Sporting — esse velho alvo de chacota benfiquista — prepara-se para ocupar o lugar de estabilidade, competência e acesso à Champions. O empate com o Braga teve qualquer coisa de simbólico. O Benfica já não perde apenas pontos; perde estatuto, confiança e centralidade no futebol português. E relegado para a Liga Europa, com custos fixos gigantescos e salários absurdos, o risco é evidente: a próxima década pode não ser apenas dececionante. Pode ser histórica… pelas piores razões. Talvez o maior drama seja esse: o Benfica continua enorme em tamanho, mas cada vez mais pequeno em identidade. E um clube sem identidade acaba sempre refém de empresários, ciclos eleitorais e promessas vazias. A águia ainda voa, claro. Mas hoje parece fazê-lo em círculos.